eu preciso muito ficar!

passei muito tempo da minha vida sem entender quando um participante de reality show dizia “isso aqui é meu sonho”. longe de mim ficar botando reparo no sonho dos outros. o meu, por exemplo, também é entrar em um reality show, mas já explico melhor isso. a questão toda que me aflige é a falta de clareza do participante sobre o que é, exatamente, seu sonho. ser famoso? ficar milionário? porque se for isso, acho que ele está se contentando com pouco.

fama e dinheiro você pode conseguir de outras formas: raptando o filho de uma celebridade e transmitindo via streaming a sua interação com ele no cativeiro, que na verdade é a sua própria casa mesmo, e a interação consiste em fornecer um pano multiuso e uma escova feiticeira, e pedir para o jovem tentar limpar objetos desafiadores, como um puf pesado e de tecido, um ventilador que é possível desmontar e montar de novo, mas você não sabe se foi pensado para ser assim, se vai perder a garantia… e luminárias de teto cujo design parece ter sido especialmente pensado para atrair, aprisionar e matar insetos, que se acumulam em uma velocidade assombrosa, não chegando a afetar a iluminação da sala, mas te deixando um pouco triste com a finitude de tantas vidas. os pedidos do jovem refém para ser deixado em paz — como ocorreria em um cativeiro convencional — seriam sumariamente ignorados pelo sequestrador, muito absorto na interação com os usuários online pessoal, quem doar 50 reais primeiro vai poder escolher o próximo objeto da sala que o menino vai limpar!

como demonstrado acima, existem maneiras mais fáceis e lúdicas de conseguir fama e dinheiro. o que distingue o reality show como um sonho superior a todos os outros sonhos é a possibilidade de suspensão temporária da civilidade. civilidade essa que não me permite engajar em brigas homéricas porque alguém me disse que tal pessoa falou uma coisa de outra pessoa e eu não concordo. ou então porque eu ouvi tal pessoa falando uma coisa de outra pessoa e fui contar para uma terceira pessoa porque não concordo. ou ainda porque uma pessoa falou uma coisa sobre mim, e outra pessoa que ouviu veio me contar porque nem ela nem eu concordamos com o que foi dito. as possibilidades são muitas.

é um microcosmo social idílico que persegue, marginaliza e se entretém testando os limites emocionais da turma do deixa disso; uma utopia onde as leis habituais de calma. fica calma. respira. vamos conversar e resolver. peço perdão pela minha descompostura. eu também peço perdão pela minha não se aplicam. melhor dizendo, se aplicam sim, mas na forma de um mero protocolo para dar fim em uma briga velha, permitindo que outra ainda melhor, mais intensa e catártica possa nascer. uma briga que nutre um genuíno sentimento de desapego em relação ao motivo gerador. que o deixa partir para que possa dar lugar a uma experiência de pura fruição estética. uma sensação plena de estar no momento, gritando qualquer coisa em resposta a um grito anterior de qualquer coisa. poder brigar em paz. esse é o sonho.

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